Acadêmicos, mas não passadistas - Salinas, Cardarelli, Visconti, Calixto

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Casa do campo, 1982

 

Nos seus mais de 60 anos de atividade, a Galeria de Arte André teve tanto no acervo como nas exposições obras conhecidas como acadêmicas, corrente que engloba variadas manifestações pictóricas e escultóricas, mas que, grosso modo, se ligam aos preceitos do que as academias de belas artes consideravam como de qualidade. A conceituação pode ser considerada de largo escopo, já que, à época, alguns dos artistas hoje celebrados poderiam ser considerados transgressores por antecipar elementos da modernidade.

 

Convite da exposição André, 60 - Da Academia ao Virtual.

A conceituação pode ser considerada de largo escopo, já que, à época, alguns dos artistas hoje celebrados poderiam ser considerados transgressores por antecipar elementos da modernidade.

 

Digressões à parte, em mostras coletivas representativas da galeria - como André, 60 - Da Academia ao virtual, de 2019, comemorativa pelas seis décadas de atuação do espaço -, trabalhos como os do espanhol Augustin Salinas y Teruel (1868-1923) sempre tiveram destaque. Com telas em especial no gênero da paisagem, tem obras nos acervos de museus como o Masp (Museu de Arte de São Paulo) e a Pinacoteca do Estado. Na mesma coletiva, quase um contraponto, a produção do campineiro Aldo Cardarelli (1915-1986) foi celebrada. O artista dominava as boas técnicas e habilidades da pintura, de acordo com os parâmetros acadêmicos, contudo, ao mesmo tempo, elegia como foco de seus quadros quase paisagens de soslaio, cotidianas, não rebuscadas, situadas nos bastidores do 'bom pintar'. Além de sua participação em André, 60, teve marcante presença em Pintores Paisagistas, relevante coletiva da André realizada em 1980 (ao lado de Rebolo, Pennacchi e Fukushima, entre outros).

 

Paisagem - Augustin Salinas

Dois outros artistas hoje ligados ao acadêmico podem ser citados na trajetória da galeria: Eliseu Visconti (1866-1944) e Benedito Calixto (1853-1927). Do artista ítalo-carioca, a André teve, por exemplo, Retrato de Louise (c. 1921), exibido na coletiva Cotidiano, em 2012, tela exemplar da qualidade e originalidade do artista. Premiado em variadas oportunidades com bolsas-viagem, realizou trabalhos marcantes, como a decoração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (1905-1916) e incursões no design algo alinhado ao art nouveau, abolindo as rígidas e estanques divisões entre artes. Ao mesmo tempo, realiza pinturas de marcado tom (neo)impressionista e foco em paisagens quase laterais, nada ostensivas, como Minha Casa de Campo (c.1929).

 

Minha casa de campo, 1929 - Eliseu Visconti

Já o pauista Calixto, cada vez mais valorizado, é de origem em família de trabalhadores (o pai era marceneiro e ferreiro), tem início autodidata e vem a estudar artes apenas em 1883, quando já possui 29 anos e, com o êxito de trabalho em Santos, segue para Paris aperfeiçoar-se, cursando a Académie Julian. Também cartógrafo e historiador, o artista nascido em Itanhaém partia de estudos fotográficos detalhados para realizar telas de cunho religioso e histórico. Algumas delas pertencem a acervos públicos, como o do Museu Paulista, com previsão de reabertura para 2022. Exposição representativa de sua produção - Benedito Calixto - Memória Paulista (1990) - mostrou na Pinacoteca de São Paulo as fieis representações de importantes lugares de São Paulo, com pinturas de Calixto e fotografias de época de Militão de Azevedo (1837-1905). Relevante produção sacra pode ser vista ao vivo em igrejas paulistanas como Santa Efigênia, Santa Cecília e Nossa Senhora da Consolação, infelizmente nem todas em boas condições de conservação.

 

Relevante produção sacra pode ser vista ao vivo em igrejas paulistanas como Santa Efigênia, Santa Cecília e Nossa Senhora da Consolação, infelizmente nem todas em boas condições de conservação.

 

Convento - Itanhaém - Benedito Calixto

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